quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A cena que eu mais gostei.

Essa deve ser uma postagem longa, pois quero comparar a cena que mais gostei com como ela foi primeiro escrita para como no final ela ficou.

Também acho desnecessário dizer, mas contém SPOILERS.

Uma das minhas propostas era que circuitos e motores "pintassem" os cenários em que Adam andasse transformando tudo num ambiente tecnológico com cabos e etc. Mas o problema foi escrever tudo isso sem que o leitor, em primeiro lugar, confundisse o que estava lendo com um detalhe importante para a trama e, segundo, não se cansar.
Bom, então para "pintar" a nave com tecnologia a cena que mais gostei de escrever foi o desmantelamento do robô. quis muito expor suas entranhas de metal para criar até um ambiente "cyber punk" e delinear uma vida num tipo de ferro velho.

Então vou colocar como começava a PRIMEIRA versão aqui:

"- O sistema da nave não ativa a ejeção sem que aja uma falha que permita o comando.
 - Eu posso fazer isso. Feche as portas dos módulos.
Adam abre um painel no centro da sala onde tem acesso aos cabos da nave. Adam separa alguns de controle de informações de sobrevivência. Pede ajuda de Heitor e os corta com a pistola. Isso gera um uma pane no sistema de incêndio da nave, que fragiliza o sistema e a nave pode receber autorização de fuga.
- Dê a ordem. – Adam.
- Liberar módulos de fuga. – Heitor.
- Acompanhe as liberações e a qualquer sinal de pane me chame.
A sala é isolada para a manutenção de ar interno da nave. Logo depois o ar da ante câmara que é criada para a liberação de módulos tem seu oxigênio sugado. Depois os módulos são expelidos. Um a um, dezenas de módulos são liberados ao silencioso espaço até não restar nenhum tripulado. Apenas cinco shuttles, naves de curto alcance, restam. Quando o último é liberado Adam crava nas costas de Heitor o cabo de alta tensão que cortou. Entre raios vermelhos Heitor cai no chão e Adam o carrega o homem de lata para outra sala."

Já é possível perceber a diferença se comparar com a versão ATUAL colocando lado ao lado como ficaram:

"-Para dispararem as naves é necessário que o sistema entre em pane. - Falava Heitor
-Eu sei disto.  Exponha o cabo de energia principal. - O robô retirava uma placa do chão e de lá retirava uma grande porção do cabo axial. Adam partiu o cabo com sua arma. Logo as naves começaram a ser desacopladas e liberadas para o espaço. Sorrateiramente Adam pegava o cabo e cravava nas costas do androide. A descarga eletrocuta o robô mordomo."
Mas a grande disparidade está no meio e no final. O meio é praticamente todo um capítulo que suprimi. Não conseguirei colocar tudo, mas posso dar uma noção com algumas partes. A versão ATUAL segue apenas assim:
"- Me entregue os controles da nave - Falava Adam para a face do robô que agora estava desmontado na mesa da sala de controle. Adam usava outros robôs para preparar a nave para suas alterações e corromper os sistemas. Cabos e mais cabos ligavam no torso de Heitor. Sua cabeça era a melhor interface."
 Já o meio desta cena na PRIMEIRA versão foi o que me deu mais alimento para a criatividade e realmente me dediquei ao sistema do robô:
"Heitor mapeia todo o incidente, apesar de instantâneo, em sua memória. Sabe dizer exatamente onde a eletricidade percorreu, o que entrou em curto, o que o levou ao desligamento, todas as partes danificadas. Por fim é gravada toda a atividade, percepção e diretrizes que havia em seus processadores até o momento em que foi desligado. Mas no ponto exato entre suas atividades e seu desligamento não há diferenciação ou memória. Não há experiência registrada. Há apenas a inferência de que naquele ponto do tempo foi desligado. E a confusão sobre aquele ponto que não pode ser tratado se dá no momento em que se percebe religado com uma vista a mais ou menos há um metro de altura, imóvel.
Inicialmente ele acha que os danos podem ter prejudicado a sua parte motora. Mas logo invade sua percepção um mar de cabos espalhados pela sala de controle que se ligam a uma parte abaixo de seu queixo que não pode visualizar e à sua cabeça, seu centro de percepções, imitado dos humanos. À sua frente o encontra Adam com seu rosto a menos de um metro com as mãos em suas têmporas simuladas, o ajustando para algo que é iminente revelar.
- Se um humano for matar outro humano, você deve intervir de forma a impedir um crime? - Adam
- Não estou entendendo – Heitor. – Você pretende matar alguém?
- Não desvie da pergunta, não tente arranjar soluções paliativas ou ganhar tempo com mais perguntas. A pergunta é: Você mataria para impedir um crime? Se o crime fosse inclusive diminuir o número de humanos a mais que a parte criminosa? Se eu for matar todas as pessoas que estão nos módulos e tudo o que você puder fazer para impedir for me matar, você mataria? – Ao longo da pergunta e ao seu fim Adam olha essa parte baixa que Heitor não pode ver.
- Um robô nunca pode tirar vida...
- Não preciso do final da resposta. Obrigado. – Adam pega umas peças do chão. – Eu prefiro te tratar como uma pessoa, apesar de parecer estranho eu agradecer por me permitir mexer nas suas entranhas. Veja, eu precisava achar isso – Adam mostra um chip de cerca de 3,5 cm por 3,5 cm com uma circunferência protuberante." 
A cena se detalha ainda mais por muitos parágrafos. Queria que tivesse vero semelhança com alguns sistemas existentes e tivesse uma legitimidade técnica. Então ele conheceria as formas de testar o sistema e criar novas leis para o robô o obedecer mais que aos planetas e sistemas que pudesse encontrar. Não queria que um cientista da computação questionasse algo como "num sistema assim isso nunca aconteceria". Mas acho que isso evoluiu para um risco menor ao longo das revisões. Acabei por suprimir toda uma parte do livro em que as configurações da consciência do robõ eram falhas e Adam precisava reconfigurar e reconfigurar o sistema.
Para terminar a cena do robô sendo modificado por Adam o final ficou na versão ATUAL assim:
"A nave estava retorcida, mas consertada, com algumas perdas, segundo a verificação de Adam. Imagino o tempo e os problemas, a vida precária que devem ter passado para poderem continuar. Honestamente acho um milagre terem sobrevivido, talvez só por Heitor haver se reconstituído. Operava a nave nos padrões definidos em seu desmantelamento. Mas ainda não é o suficiente para o comportamento de Adam."
Ainda coloquei um novo evento, o ataque à nave de Adam. Mas é interessante ver a diferença com o final desta mesma cena na PRIMEIRA versão:
"- Não resta muito o que fazer agora, se eu não restaurar seu cérebro, não atravessarei um século a mais. - Adam fala depois de descansar de sua corrida contra o tempo sob as intensas luzes verdes da tela de comando. As naves nunca apareceram em seu radar e pode saltar e fugir. Pode passar um período superior a 50 anos hibernando. Aparentemente Adam é um programador com habilidades superiores as que acredita ter. Ou o robô o mentiu. – Agora eu só tenho que alterar se padrão de funcionamento. Quero sua ética igual a que era antes, mas vulnerável a mim. Consertarei seu ship de um modo bom para nós dois. Eliminar, ou criar outros meios de defesa contra a contaminação do sistema e criar algum alarme para suas ações. Assim posso ir te moldando e o sistema como eu quiser. O que você acha?"
Quando a necessidade me atingiu vi que estava me apegando a uma parte estética muito mais do que essencial para a trama. Enfim fiz mais um desses maléficos cortes que me doeu. Mas acabou que com 4 páginas consegui contar tudo o que precisava.

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